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Internet define um novo tipo de poder

 
Joseph Nye, politólogo, professor da Universidade de Harvard

 

Num ambiente de telefones portáteis, computadores e lugares web como MySpace, Facebook e LinkedIn, resulta trivial dizer que vivemos num mundo conectado em redes. Mas não o é remarcar que as diferentes redes brindam novas formas de poder e requerem estilos diferentes de direção.

Barack Obama o entende; de fato, ajudou-o a conseguir sua vitória. Conquanto Obama não foi o primeiro político norte-americano que recorreu a Internet, foi o que utilizou com mais eficácia a nova tecnologia para arrecadar dinheiro de pequenos doadores, infundir energia a seus voluntários e transmitir suas mensagens aos votantes. Agora tem que se propor a questão de como utilizar as redes para governar.

Há redes de muitas formas e tamanhos. Umas criam vínculos fortes, enquanto outras produzem laços débeis. Pense-se na diferença entre amigos e conhecidos. É mais provável que se compartilhe informação valiosa com os amigos que com os conhecidos, mas os laços débeis têm uma extensão maior e contribuem informação mais inovadora, inovadora e não redundante.

As redes baseadas em vínculos fortes criam o poder da lealdade, mas podem converter-se em círculos que redistribuam conhecimentos tradicionais. Por isso, é importante a diversidade dos eleitos por Obama para que façam parte de seu governo.
Os laços débeis, como os que encontramos em Internet, são mais eficazes do que os vínculos fortes para contribuir a informação necessária a fim de conectar grupos diversos de forma cooperativa. Dito de outro modo, as redes débeis são um dos fatores aglutinantes de sociedades diversas. São também a base da direção democrática. Os maiores políticos democráticos têm uma grande capacidade para as amizades superficiais.

Como os dirigentes precisam cada vez mais entender a relação das redes com o poder, terão que adaptar estratégias e criar equipes que se beneficiem tanto dos vínculos fortes como dos débeis.

A informação cria poder e na atualidade há mais pessoas que têm mais informação que em nenhum outro momento da história humana. A tecnologia democratiza os processos políticos e sociais e, para bem e para mau, as instituições desempenham menos um papel mediador.

De fato, o conceito básico que as vezes se chama Web 2.0 se baseia na idéia de que o conteúdo procedente dos usuários vá ascendendo desde abaixo em lugar de descer desde a cume de uma hierarquia tradicional da informação. Instituições como a Wikipedia e Linux são exemplos de produção social que entranham papéis muito diferentes para os dirigentes dos homólogos tradicionais (a Enciclopédia Britânica e Microsoft).

Agora os governos estão experimentando com meios similares para criar e distribuir informação, mas ainda têm muito caminho por percorrer. Tradicionalmente, os governos foram muito hierárquicos, mas a revolução da informação está afetando a estrutura das organizações. As hierarquias se estão voltando mais planas e ficam imersas em redes fluídas de contatos.

Os trabalhadores de escritórios que utilizam o conhecimento respondem a incentivos e apelos políticos diferentes aos dos trabalhadores industriais. As enquetes de opinião mostram que atualmente os cidadãos têm uma atitude menos deferente para com a autoridade nas organizações e a política.

Também nas empresas as redes estão cobrando maior importância. Em alguns casos, pode-se orquestrar uma rede complexa simplesmente com contratos especificados, mas a fricção da vida normal costuma criar ambigüidades que não se podem enfrentar plenamente de antemão. Ao descrever o sucesso das redes de Toyota e Linux, o Boston Consulting Group conclui que o poder duro das cenouras monetárias e os paus da rendição de contas motivam às pessoas para que desempenhem tarefas limitadas e especificadas, mas que o poder macio da admiração e do aplauso é um estimulante bem mais eficaz para conseguir melhores comportamentos.

Os estilos tradicionais de direção de empresas se voltaram menos eficazes. Segundo Sam Palmisano, diretor gerente de IBM, os métodos hierárquicos de comando e controle deixaram, singelamente, de funcionar. Põem obstáculos as correntes de informação dentro das empresas e entorpecem o caráter cooperativo e fluido do trabalho na atualidade.

Segundo um estudo das mais importantes empresas que combinam as operações informáticas com as tradicionais, a distribuição do poder era essencial. No ambiente de Internet, a concepção tradicional de um diretor que mantém um controle férreo e individual resulta difícil de conciliar com a realidade. Ao invés, a direção eficaz depende da utilização de múltiplos diretores para adotar decisões competentes.

O professor da Escola de Administração de Empresas de Harvard John Quelch escreve que "o sucesso empresarial depende cada vez mais das sutilezas do poder brando".

Dito de outro modo, era-a de Internet requer novos estilos de direção nos que o atraente poder macio deve complementar o tradicional poder duro do comando. Num mundo conectado em redes, dirigir consiste mais em estar situado no centro do círculo e atrair aos demais que em ser "o rei da montanha" e formular ordens aos subordinados de abaixo.

Obama entende essa dimensão da direção conectada em redes e a importância do poder macio da atracção. Não só utilizou com sucesso as redes em sua campanha; seguiu recorrendo a Internet para chegar até os cidadãos. Está claro que está tentando mudar o estilo de exercício do poder e adaptá-lo a um mundo conectado em redes.

 

Copyright Clarín e Project Syndicate, 2009.

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