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O furacão financeiro açoita a América latina

 

Por Sebastián Edwards
Professor de Economia na UCLA e economista principal para América latina do Banco Mundial.

 

Faz umas semanas, o mundo estava à beira do desastre. Felizmente, as ações decisivas tomadas pelas autoridades monetárias dos países avançados –entre elas, a provisão de quantidades de liquidez sem precedentes- impediram uma crise financeira total. O mundo evitou a “argentinização” do sistema financeiro internacional. O que não se evitou é uma recessão que será profunda, prolongada e global. Nos meses vindouros, praticamente toda região no mundo experimentará uma desaceleração econômica, com uma caída das exportações e um incremento do desemprego.

Os acontecimentos recentes jogaram por terra o conceito de que os países emergentes se tinham “desacoplado” das economias avançadas. Os fatos demonstraram tudo o contrário. A maioria das economias emergentes seguem sendo frágeis e estão afetadas pelo que sucede nos países avançados. Os efeitos desta recessão serão particularmente severos em América latina.

O Brasil e o México foram os mais afetados até o momento, no ponto de que o valor de suas empresas caiu aproximadamente o 50%. A situação nestes países é tão séria que faz uns dias os Estados Unidos lhes outorgou um crédito de até 60.000 milhões de dólares.

No entanto, o Brasil e o México não são os únicos afetados pela volatilidade financeira: a moeda do Chile perdeu uma terceira parte de seu valor, no Peru o custo do financiamento externo se disparou e na Argentina o governo teve que recorrer a medidas extremas –como a nacionalização do sistema de pensão- para poder evitar uma calamidade fiscal iminente.

Se a recessão se prolonga 18 meses ou mais como se estima –o que a converteria na mais prolongada desde a Segunda Guerra Mundial-, a Argentina será um dos países mais afetados. Suas necessidades de financiamento externo são imensas e suas exportações cairão marcadamente. Mas a política também desempenhará um papel importante na urgência econômica da Argentina.

A administração da presidenta Cristina Fernández de Kirchner gera uma grande dose de desconfiança entre os investidores locais e estrangeiros, que temem que se adotem medidas arbitrárias. A decisão recente de Standard and Poor’s de baixar-lhe a qualificação à Argentina está plenamente justificada e reflete o temor de muitos analistas de que a Argentina novamente entre em cessação de pagamentos de sua dívida pública.

México e América Central também sofrerão uma recessão prolongada. Durante muitos anos, seu destino econômico esteve intimamente relacionado com o dos Estados Unidos. Estes vínculos aumentaram com a assinatura de tratados bilaterais de livre comércio com os Estados Unidos, de maneira que existe uma boa possibilidade de que possam experimentar um crescimento negativo em 2009 e, talvez, na primeira metade de 2010, quando Estados Unidos entre em recessão.

Menos afetados pela crise financeira e a recessão nos Estados Unidos serão aqueles países que se desenvolveram com um olho posto nas nações de Ásia –particularmente Chile, Colômbia e Peru- e que acumularam recursos para defrontar a tormentas financeiras inesperadas. Eles poderão recuperar mais rápido seus níveis de emprego.

Mas o interrogante mais importante é que sucederá no Brasil, o gigante de América Latina. Nos últimos anos, analistas e investidores em todo mundo começaram a ver ao Brasil como uma potência econômica em crescimento. Falava-se por milagre e muitos sustentavam que o Brasil cresceria de maneira espetacular, ao igual que a China e a Índia, e que já não seria o país eterno do “futuro”. Desafortunadamente, tudo indica que esta foi uma ilusão baseada numa esperança desejosa.

O auge de Brasil dos últimos anos se baseou num alicerce incrivelmente débil. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva efetivamente decidiu evitar o populismo rampante de Hugo Chávez da Venezuela, e lhe defrontou à inflação exitosamente. Mas se precisa algo mais para converter-se numa grande potência econômica. O que fez Lula foi simplesmente decidir que o Brasil seria um país “normal”. Mas faz falta algo mais do que uma inflação controlada para criar uma economia robusta com um índice de crescimento alto e sustentável. Requer-se agilidade, dinamismo, produtividade e políticas econômicas que promovam a eficiência e a iniciativa empresária.

Como demonstraram muitos estudos, o Brasil não pôde –ou não quis- adotar as reformas modernizadoras necessárias para promover um boom produtivo. O Brasil segue sendo um país imensamente burocrático, com um sistema educativo em crise, impostos muito altos, uma infra-estrutura medíocre, impedimentos para a criação de empresas e um alto nível de corrupção. É triste mas é verdade: nos últimos anos, o Brasil não optou pela modernização e a eficiência e terá que pagar as conseqüências durante os difíceis anos por diante.

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