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América latina: evitar um novo ciclo de crises recorrentes

 

Por Luis Alberto Moreno - Presidente do BID - Banco interamericano de Desenvolvimento

 

Para finais de 2008, América latina terá registrado seu sexto ano consecutivo de crescimento econômico, a taxas nunca vistas desde os setenta. A inflação está em níveis moderados. Em média, os balanços fiscais e as contas externas mostram saldos positivos. E, a diferença do passado, este crescimento não está gerando desequilíbrios fundamentais. Estes são lucros notáveis, mais ainda num contexto global marcado pela crise hipotecária nos Estados Unidos.

Os resfrios do Norte costumavam provocar gripes no Sul. Nesta oportunidade não nos contagiamos. Mas cuidado com a complacência. Conquanto América latina se manteve relativamente isolada, há sinais de deterioração que chamam à reflexão.

Em alguns países latino americanos, a situação fiscal tem abatido porque os gastos cresceram mais do que os rendimentos. Em variados os saldos de conta corrente já são negativos. O desemprego se reduziu mal moderadamente. Os custos da energia estão gerando fortes pressões inflacionárias.

Ainda que a região está melhor preparada para defrontar a shocks externos, persistem algumas vulnerabilidades que reclamam prudência.

Por um lado, poderiam piorar as condições financeiras internacionais. Pelo momento, as injecçoes de liquidez da Reserva Federal beneficiaram a nossa região, ajudando a manter altos os preços das commodities agrícolas e mantendo baixas as primas de risco da dívida latino americana.

Por outro lado, o crescimento sustentado de China e Índia faz pensar que as economias emergentes podem "separar-se" dos problemas nas economias maduras. No entanto, ainda não está comprovada a resistência de China e Índia a uma desaceleração global. Em soma, não há garantias de que as condições externas favoráveis perdurem indefinidamente. Devemos preparar-nos para tempos mais difíceis.

Onde estamos débeis? Em matéria fiscal, o gasto público tendeu a aumentar em vários países. Isto não resultará sustentável se caem os rendimentos fiscais por uma baixa nos preços das exportações. Poucos governos tomaram medidas para reforçar os rendimentos tributários e moderar os riscos fiscais.

Mas devemos cuidar que o custo do ajuste não recaia sobre os pobres. Quiçá a maior ganância desta bonança foi a redução da percentagem da população em pobreza ao 36,5%. Este lucro poderia resultar efêmero.

Conquanto em vários países a relação dívida/PIB veio baixando, ainda estão mais altas do que em 1997, o ano prévio à recessão que afetou a quase toda a região. Em parte, a melhora dessa relação se deve à apreciação de várias moedas latino americanas, tendência que poderia reverter-se.

Com respeito ao setor externo, o ano passado a região registrou um superávit de conta corrente equivalente ao 0,7% do produto bruto regional. As reservas internacionais da região hoje representam mais de sete meses de importações. Estes números são muito positivos, mas as projeções do FMI para 2008 já mostram uma leve deterioração das contas externas. Pela primeira vez em vários anos, espera-se que o saldo de conta corrente seja levemente deficitário para a média da região. Ademais, estes números refletem os altos preços das commodities. Segundo cálculos do BID, se os termos do intercâmbio estivessem nos níveis de 2003, o saldo de conta corrente regional arrojaria um déficit do 2,7% do PIB.

Pressões inflacionárias

A política de acumulação de reservas pode tocar teto pelo crescente custo de esterilização para os bancos centrais, bem como pelas crescentes pressões inflacionárias em vários países.

A inflação média na região em 2007 foi do 6,3%, um forte aumento com respeito ao 5% do ano prévio. Ainda que as projeções para 2008 são similares às de 2007, há uma grande dispersão entre diferentes países porque não todos os bancos centrais têm a mesma aversão à inflação. A história inflacionária de América latina demanda endurecer as políticas monetárias onde seja necessário.

O desemprego regional baixou de um 8,6%, em 2006, a um 8%, em 2007, uma queda menor do que a de anos anteriores, o qual sugere que estamos chegando a níveis estruturais. De aqui em adiante, o progresso nesta frente dependerá mais das reformas regulatórias e as políticas trabalhistas que do ciclo econômico.

Finalmente, os bons resultados macro têm camuflado o pobre desempenho de uma variável clave: a produtividade. Não obstante as reformas das últimas décadas, numerosos obstáculos limitam o investimento privado e a geração de empregos de alta produtividade.

O progresso em matéria de estabilidade é inegável, pelo menos para uma maioria de países de América latina. No entanto, ante o novo panorama internacional e as persistentes vulnerabilidades estruturais, é imperativo evitar um novo ciclo de crises recorrentes. Devemos resolver as matérias pendentes.

 

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