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O novo regionalismo de América Latina

 
arias sanchez

Oscar Arias Sánchez, Presidente de Costa Rica
e Premio Nobel da Paz 1987

 

Vivemos num mundo cheio de fronteiras traçadas uma e outra vez ao longo da historia, escolhidas por desejo ou capricho, e com demasiada freqüência defendidas com derramamento de sangue. Sempre foram imperfeitas, e hoje essas imperfeições são visíveis de novas maneiras.

Grandes grupos de imigrantes que abandonam sua pátria devido á desesperação e a pobreza sumam as penas de uma nação para outra. A mudança climática pela destruição do meio ambiente num lugar pode gerar inundações, tormentas, secas e fome em qualquer lugar, e com o fácil que resulta hoje viajar pelo planeta faz com que as doenças se espalhem mais rapidamente. Cada vez mais devemos reconhecer que as fronteiras já não são muros infranqueáveis, mas somente linhas que traçamos no ar.

Em poucas palavras, nenhuma nação deste planeta cambiante e cada vez menor pode afrontar seus problemas de maneira isolada. Em nenhuma região isto é mais evidente do que em América Latina e o Caribe, aonde os desiguais sopros da historia e as diferentes políticas nacionais criaram diversidade de destinos para nossos povos. Hoje -algumas vezes em diferentes nações, outras vezes dentro delas- uma riqueza que alguma vez foi impensável coexiste com uma pobreza extrema e as afeições sociais que isso traz. A nossa é uma região de cruéis contrastes.

Afortunadamente, muitos paises desta parte do mundo reconheceram que o bem estar regional se deve afrontar como um reto regional. Tenho orgulho de mencionar a Costa Rica entre eles. Nossa nação pode ser pequena, mas nosso compromisso de melhorar o bem estar da região não é nada  menor.

Temos um importante papel que jogar em dar a maior importância aos princípios de atuar com transparência, com um sólido conhecimento e tomando decisões de qualidade. Costa Rica é a democracia mais estável da região, um lugar aonde a paz, a natureza e a educação são valoradas por sobre tudo. Porém, mesmo tendo orgulho dos nossos logros, há tempo que reconhecemos nosso futuro ligado estreitamente aos retos que enfrentam nossos vizinhos, já sejam conflitos militares, como os acontecidos há 20 anos, ou fome e doenças, como hoje acontecem.

Por isso, me satisfaz que em outubro o Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Centro Consenso de Copenhague realizem uma conferencia em nossa capital, São José, inspirada na reunião do Consenso de Copenhague de 2004. Nessa reunião, um painel de pensadores mundiais do âmbito da economia teve o desafio de responder a esta pergunta: ¿se fossem destinados US$50 milhões adicionais para melhorar as condições mundiais, como se poderia distribuir esse dinheiro para assim conseguir os maiores benefícios possíveis?

Os expertos chegaram á conclusão de que a maioria, senão todas, das soluções aos maiores desafios mundiais dependem dos contextos locais ou regionais. Por tanto, o evento de São José vai ocupar o lugar de uma perspectiva global por uma local, com um novo painel de analistas que se centrará nos maiores retos que afronta a região de América Latina e o Caribe.

Os desafios se podem classificar em dez categorias, um listado muito bem conhecido de problemas de saúde centrais nesta parte do mundo: democracia, educação, emprego, meio ambiente, problemas fiscais, saúde, infra-estrutura, pobreza e desigualdade, administração publica, e delinqüência.

Os expertos vão se afrontar com restrições obvias. Não podemos satisfazer as demandas de todos e cada um, nem solucionar de uma vez todos nossos problemas. Devemos selecionar de entre varias boas idéias, não importa o difícil que possa ser fazê-las realidade. Este painel vai criar um listado das prioridades que podem prestar como pauta para as autoridades regionais  cargo do design de políticas, ajudando a ser ambiciosos e realistas ao mesmo tempo.

A “Consulta de São José”, como foi chamado o encontro, produzirá idéias praticas que os lideres possam implementar e vai nós ajudar a identificar e promover iniciativas eficientes em função dos seus custos. No entanto, mais importante é o fato de que servirá para pôr ênfase na importância da ação coletiva. Trabalhar em conjunto com um sentido genuíno de comunidade regional é um reto em si mesmo, mas um, que vale a pena abordar.

Foi dito que “boas cercas criam bons vizinhos”. Existe uma sabedoria inegável nessas palavras, mas é tempo de reavaliar o quê são “boas cercas” realmente no mundo de hoje, devem ser o suficientemente baixas como para permitir lhe dar a mão ao vizinho, compreender seus problemas como compreendemos os nossos e achar soluções fatíveis. Devem-se construir sabendo que nenhuma cerca, muralha, oceano nem continente pode nós separar realmente dos problemas dos outros.

Este foi o espírito da conferencia que vêm. Espero que seja difundido além de São José e que outras regiões se juntem conosco para reconhecer que mesmo que as nossas fronteiras definam nossos territórios, ter a coragem de criar pontes por sobre elas define nosso caráter e, por ultimo, nosso sucesso ou fracasso futuro.

 

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