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Diferenciar a integração política da econômica

 

Dr. Ricardo Lagos, ex presidente do Chile

 

Nunca foi bom para América Latina confundir os espaços políticos e econômicos quando se fala de integração, pois quase sempre acaba-se confundindo as referencias e os objetivos. Conheço muito bem o débil que pode chegar a ser, as vezes, a fronteira entre os campos, mas existem as agendas políticas e as outras essencialmente econômicas. E é nisso que não devemos nós confundir de bússola.

Mas, infelizmente, acabamos nós confundindo. Existiu falta de claridade para distinguir a essência de uma integração construída desde um ponto de vista político à integração levada a frente desde o ponto de vista econômico. Em momentos, influenciados pelas experiências no mundo, acabamos colocando o ênfase no econômico e tentamos integrarmos através de diversidade de formas de livre comercio entre nós. Mas, não existe uma única formula para isto e as vezes esquecemos que os interesses dos paises são distintos porque as suas especificidades econômicas são diversas.

A decisão de se abrir ao mundo e ter muitos acordos comerciais num país como Chile, com somente 15 milhões de habitantes, se explica porque seu crescimento está ligado a sua apertura ao mundo e porque tem um mercado pequeno ao qual defender. Outra cosa é o Brasil, um país continente com 180 milhões de habitantes e um mercado interno que é preciso proteger, para poder negociar melhor. Em conseqüência, para os temas da integração econômica se requer ter uma geometria variável aonde possamos entender os interesses de cada um dos países e sobre esta base definir como avançar.

E isto nos leva a formula do mínimo comum. Trata-se de ter claridade sobre qual poderia ser o mínimo que em matéria de integração a todos poderia parecer aceitável, para somar-se ao mapa comum da integração continental. Por exemplo, poderíamos começar somente por liberalizar o mercado de bens e deixando para etapas sucessivas outros campos, como compras de governo, propriedade intelectual, serviços, em particular serviços financeiros. Uma espécie de pirâmide aonde todos concorrem a uma base em comum e logo nos estágios superiores vai se entrando na medida em que aquilo se faz compatível com os perfis econômicos de cada país.

O outro cenário é o da integração política. Este não é um tema menor num mundo que está em plena reforma e na construção de novos referentes globais. Nesta tarefa cabe procurar aqueles elementos nos quais é possível ter uma alta coordenação para atuar com visões comuns nos foros internacionais. Em todo o mundo existe um consenso majoritário: queremos e precisamos multilateralismo para defender melhor nossa inserção no mundo do século XXI. De um extremo ao outro sabemos que nossa maior demanda é pela reforma real das Nações Unidas e dos seus organismos dependentes como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. Nossa visão política comum se baseia no respeito à diversidade, aos direitos humanos, à democracia. E quando falamos de participação de todos estamos falando do direito a ter aceso aos avanços científicos e tecnológicos, como também a não ser vitimas da brecha digital.

Trata-se de fazer política comum tendo em conta a mirada nos temas de hoje, assumindo a cota de responsabilidade internacional que nós corresponde neste novo ordem mundial e também levantando a voz para que esse ordem tenha os perfis que sejam coerentes com nossos princípios. Não avançamos muito, mas temos um instrumento para faze-lo: o Grupo Rio. Este surgiu como necessidade de solucionar pelos nossos meios a crise em América Central. A tarefa foi cumprida e a pratica levou a criar um mecanismo de coordenação política cujo potencial é enorme. Trata-se de pô-lo ao dia, de lhe organizar uma agenda de verdadeira coordenação aonde a diversidade seja o espaço para reforçar o essencial. E quando se tem claridade nos dois lados – no político e no econômico – surge com fluidez o que poderíamos chamar a tarefa maior, aquela aonde a política escolhe uma grão meta de ação econômica.

Mais de uma vez vários dos nossos lideres latino-americanos prantearam que essa meta pode ser construída a partir de um grão pacto energético entre os países de América do Sul. Tivemos uma sinal promissora agora nos debates registrados recentemente na Ilha Margarita, em Venezuela.

Isto gera a necessidade urgente de criar um código de conduta, algo assim como o tratado que tem Europa, no qual se estipula como são estabelecidas as negociações no âmbito energético e como é possível utilizar os ductos que cruzam os distintos países, para que terceiros países possam receber ou enviar petróleo ou gás através dessas vias. Ou seja, a decisão política de levar as coisas por um terreno técnico serio e eficiente.

Avançar nesta direção é o que cabe esperar para uma próxima reunião em matéria energética. E, se ao mesmo tempo, o Grupo Rio é ativado novamente no político, América latina poderá demonstrar que é capaz de ter uma mirada homogênea perante aos grandes temas mundiais, e ao mesmo tempo realizar avanços reais no comercial, com geometria variável. Faze-lo pode nós levar a ser observados com mais confiança e respeito no que somos e podemos ser.

 

Fonte: Jornal Clarín de Buenos Aires, domingo 6 de maio.
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